"Quem olha para fora sonha, quem olha para dentro acorda"

JUNG

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Taça Inteira - Rubem Alves


Já deu para perceber que adoro os textos de Rubem Alves, esse é mais um que conheci essa semana e gostei muito, fala a respeito do envelhecimento e como isso é "negativado" pela nossa sociedade que vê essa fase como sentença de morte ou inutilidade. Achamos que a vida está acabando, quando ela pode estar apenas se transformando, e sabendo podemos usar essa transformação de uma forma muito positiva.
Adriana Biem

Você que trabalhou, batalhou, criou os filhos, envelheceu... Os filhos cresceram, saíram de casa, você se aposentou... E agora o tempo se estende vazio à sua frente, pouco importa levantar-se cedo ou tarde, não faz diferença, os dias fi- caram todos iguais, não há batalhas a travar, ninguém precisa de você... Cada dia é um peso, é preciso matar o tempo, descobrir um jeito de não pensar, pois o pensamento dói, e vem uma vontade de beber, uma vontade de esquecer, uma vontade de morrer...
Chegou o momento da inutilidade, e é isso que você não suporta, pois lhe ensinaram (e você acreditou) que os homens e as mulheres são como as ferramentas, que só valem enquanto forem úteis. Ensinaram- lhe que você é uma ferramenta que merece viver enquanto puder fazer. E agora que o seu fazer não faz mais diferença, você se coloca ao lado dos objetos sem uso. À espera de que a morte venha colocá-lo no devido lugar, pois nada mais há que esperar. Você está sem esperança.
Mas lhe ensinaram mal, muito mal. Pois nós não somos ferramentas. Não vivemos para ser úteis. Dizem os textos sagrados que Deus trabalhou seis dias para plantar um jardim. Terminado o trabalho, já não havia nada mais para ser feito. E foi justamente então que Deus sentiu a maior alegria. Terminado o tempo do trabalho, chegara o tempo do desfrute. E o Criador se transformou em amante: entregou-se ao gozo de tudo o que fizera. Com as mãos pendidas (pois tudo o que devia ser feito já havia sido feito), seus olhos se abriram mais. Olhou para tudo e viu que era lindo. Pôs-se a passear pelo jardim, gozando as delícias do vento fresco da tarde. E, embora os poemas nada digam a respeito, imagino que o Criador tenha também se deleitado com o gosto bom dos frutos e com o perfume das flores - pois que razões teria ele para criar coisas tão boas se não sentisse nelas prazer?
Se há uma lição a ser aprendida desses textos, lição que é que não somos como serrotes, enxadas, alicates, fósforos e lâmpadas que, uma vez sem o que fazer, são jogados fora. A nossa vida começa justamente com o advento da inutilidade. Pois o momento da inutilidade marca o início da vida de gozo. Nada mais preciso fazer. Travei as batalhas que tinha de travar. Nada devo a ninguém. Estou livre agora para me entregar ao deleite.
Todas as escolas só nos ensinam a ser ferramentas. Será preciso que você procure mestres que ainda não foram enfeitiçados por elas. Você deve procurar as crianças. Somente elas têm o poder para quebrar o feitiço que o está matando ainda em vida.
As almas dos velhos e das crianças brincam no mesmo tempo. As crianças ainda sabem aquilo que os velhos esqueceram e têm de aprender de novo: que a vida é brinquedo que para nada serve, a não ser para a alegria!
Desde os seis anos tenho mania de desenhar a forma das coisas. Aos cinquenta anos publiquei uma infinidade de desenhos. Mas tudo o que produzi antes dos setenta não é digno de ser levado em conta. Aos 73 anos aprendi um pouco sobre a verdadeira estrutura da natureza dos animais, plantas, pássaros, peixes e insetos. Com certeza, quando tiver oitenta anos, terei realizado mais progressos, aos noventa penetrarei no mistério das coisas, aos cem, por certo, terei atingido uma fase maravilhosa e, quando tiver 110 anos, qualquer coisa que fizer, seja um ponto, seja uma linha, terá vida.
Vamos! A vida é bela. Pare de namorar a morte! Beba a taça até o fim!

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Tênis X Frescobol – Rubem Alves


Esse texto é para todos os casais refletirem que tipo de jogo costumam jogar no relacionamento...perceba se vc é um casal "tênis" ou um casal "frescobol"



O tênis é um jogo feroz, o objetivo dele é derrotar o adversário, e a sua derrota se revela no seu erro: o outro foi incapaz de devolver a bola. Joga-se tênis para fazer o outro errar. O bom jogador é aquele que tem a exata noção do ponto fraco do seu adversário. E é justamente para aí que ela vai dirigir a sua cortada – palavra muito sugestiva que indica o seu objetivo sádico, que é o de cortar, interromper, derrotar. O prazer do tênis se encontra portanto, justamente no momento em que o jogo não pode mais continuar porque o adversário foi colocado fora de jogo. Termina sempre com a alegria de um e a tristeza do outro.
O frescobol se parece muito com o tênis: dois jogadores, duas raquetes e uma bola. Só que para o jogo ser bom, é preciso que nenhum dos dois perca. Se a bola veio meio torta, a gente sabe que não foi de propósito e faz o maior esforço do mundo para devolvê-la gostosa, no lugar certo para que o outro posso pegá-la. Não existe adversário porque não há ninguém a ser derrotado. Aqui ou os dois ganham ou nenhum ganha, e ninguém fica feliz quando o outro erra, pois o que se deseja é que ninguém erre. O erro de um no frescobol é como uma ejaculação precoce: um acidente lamentável que não deveris ter acontecido, pois o gostoso mesmo é aquele ir e vir. E o que errou pede desculpas, e o que provocou o erro se sente culpado, mas não tem importância, começa-se de novo esse delicioso jogo em que ninguém marca pontos.
A bola são os nossas fantasias, irrealidades, sonhos sob a forma de palavras. Conversar é ficar batendo sonhos pra lá, sonhos pra cá...
Mas há casais que jogam com os sonhos como se jogassem tênis. Ficam a espera do momento certo para a cortada, tênis é assim, recebe-se o sonho do outro para destruí-lo, arrebentá-lo como bolha de sabão. O que se busca é ter razão, o que se ganha é o distanciamento. Aqui, quem ganha sempre perde.
Já no frescobol é diferente, o sonho do outro é um brinquedo que deve ser preservado, pois se sabe que, se é sonho, é coisa delicada, do coração. O bom ouvinte é aquele que ao falar, abre espaço para que as bolhas de sabão do outro voem livres. Bola vai, bola vem, cresce o amor. Ninguém ganha para que os dois ganhem. E se deseja então que o outro viva sempre, eternamente, para que o jogo nunca tenha fim...

domingo, 6 de fevereiro de 2011

Ilha do Medo - Shutter Island - Martin Scorsese

Assisti Ilha do Medo ontem a noite e gostei muito...até a metade o filme parece meio cansativo, mas quem conseguir ir até o final com certeza irá se surpreender.
Final surpreendente e até mesmo misterioso, talvez cada um entenda de uma forma...
Achei que o filme te envolve nos medos e principalmente nas dúvidas do personagem...e talvez as dúvidas continuem até depois do final do filme...
Ilha do Medo foi alvo de muitas críticas, mas eu como não entendo tanto assim de cinema, mas aprecio bons filmes, gostei muito e recomendo...
Um ótimo "suspense psicológico"...
Prestem atenção: “Voce preferia viver como um monstro, ou morrer como um homem bom? Talvez aí esteja a explicação...ou não...

sábado, 5 de fevereiro de 2011

Crônica da Loucura

Essa é uma das minhas crônicas preferidas, ela é de Luiz Fernando Veríssimo...
Divirtam-se...
O melhor da Terapia é ficar observando os meus colegas loucos. Existem dois tipos de loucos. O louco propriamente dito e o que cuida do louco: o analista, o terapeuta, o psicólogo e o psiquiatra. Sim, somente um louco pode se dispor a ouvir a loucura de seis ou sete outros loucos todos os dias, meses, anos. Se não era louco, ficou.

Durante quarenta anos, passei longe deles. Pronto, acabei diante de um louco, contando as minhas loucuras acumuladas. Confesso, como louco confesso, que estou adorando estar louco semanal.

O melhor da terapia é chegar antes, alguns minutos e ficar observando os meus colegas loucos na sala de espera. Onde faço a minha terapia é uma casa grande com oito loucos analistas. Portanto, a sala de espera sempre tem três ou quatro ali, ansiosos, pensando na loucura que vão dizer dali a pouco.

Ninguém olha para ninguém. O silêncio é uma loucura. E eu, como escritor, adoro observar pessoas, imaginar os nomes, a profissão, quantos filhos têm, se são rotarianos ou leoninos, corintianos ou palmeirenses.

Acho que todo escritor gosta desse brinquedo, no mínimo, criativo. E a sala de espera de um "consultório médico", como diz a atendente absolutamente normal (apenas uma pessoa normal lê tanto Paulo Coelho como ela), é um prato cheio para um louco escritor como eu. Senão, vejamos:

Na última quarta-feira, estávamos:
1. Eu
2. Um crioulinho muito bem vestido,
3. Um senhor de uns cinqüenta anos e
4. Uma velha gorda.

Comecei, é claro, imediatamente a imaginar qual seria o problema de cada um deles. Não foi difícil, porque eu já partia do principio que todos eram loucos, como eu. Senão, não estariam ali, tão cabisbaixos e ensimesmados.

(2) O pretinho, por exemplo. Claro que a cor, num país racista como o nosso, deve ter contribuído muito para levá-lo até aquela poltrona de vime. Deve gostar de uma branca, e os pais dela não aprovam o namoro e não conseguiu entrar como sócio do "Harmonia do Samba"? Notei que o tênis estava um pouco velho. Problema de ascensão social, com certeza. O olhar dele era triste, cansado. Comecei a ficar com pena dele. Depois notei que ele trazia uma mala. Podia ser o corpo da namorada esquartejada lá dentro. Talvez apenas a cabeça. Devia ser um assassino, ou suicida, no mínimo. Podia ter também uma arma lá dentro. Podia ser perigoso. Afastei-me um pouco dele no sofá. Ele dava olhadas furtivas para dentro da mala assassina.

(3)E o senhor de terno preto, gravata, meias e sapatos também pretos? Como ele estava sofrendo, coitado. Ele disfarçava, mas notei que tinha um pequeno tique no olho esquerdo. Corno, na certa. E manso. Corno manso sempre tem tiques. Já notaram? Observo as mãos. Roía as unhas. Insegurança total, medo de viver. Filho drogado? Bem provável. Como era infeliz esse meu personagem. Uma hora tirou o lenço e eu já estava esperando as lágrimas quando ele assoou o nariz violentamente, interrompendo o Paulo Coelho da outra. Faltava um botão na camisa. Claro, abandonado pela esposa. Devia morar num flat, pagar caro, devia ter dívidas astronômicas. Homossexual? Acho que não. Ninguém beijaria um homem com um bigode daqueles. Tingido.

(4) Mas a melhor, a mais doida, era a louca gorda e baixinha. Que bunda imensa. Como sofria, meu Deus. Bastava olhar no rosto dela. Não devia fazer amor há mais de trinta anos. Será que se masturbaria? Será que era esse o problema dela? Uma velha masturbadora? Não! Tirou um terço da bolsa e começou a rezar. Meu Deus, o caso é mais grave do que eu pensava. Estava no quinto cigarro em dez minutos. Tensa. Coitada. O que deve ser dos filhos dela? Acho que os filhos não comem a macarronada dela há dezenas e dezenas de domingos. Tinha cara também de quem mentia para o analista. Minha mãe rezaria uma Salve-Rainha por ela, se a conhecesse.

Acabou o meu tempo. Tenho que ir conversar com o meu psicanalista.

Conto para ele a minha "viagem" na sala de espera.

Ele ri... Ri muito, o meu psicanalista, e diz:

- O Ditinho é o nosso office-boy.

- O de terno preto é representante de um laboratório multinacional de remédios lá no Ipiranga e passa aqui uma vez por mês com as novidades.

- E a gordinha é a Dona Dirce, a minha mãe.

- "E você, não vai ter alta tão cedo..." <!--[if !vml]--><!--[endif]--> <!--[if !vml]-->Crônica da Loucura<!--[endif]-->


Socorro!! Meu filho não pára quieto!!



Todo mundo conhece alguma criança que é uma “pestinha”. Aquela criança que não fica quieta um segundo, pula pra lá e pula pra cá, derruba tudo, parece que está “ligada no 220V”. Algumas ainda são desligaas ao extremo, não conseguem se concentrar em nada, estão sempre no “mundo da lua”.
Muitas vezes essas crianças são taxadas de mal educadas, burras, rebeldes, preguiçosas, entre outros tantos rótulos que conhecemos.
Uma das coisas que devemos compreender nessas nossas “queridas pestinhas” é que muitas das vezes esse tipo de comportamento está ligado a algo que é chamado de TDA-H (transtorno de déficit de atenção – hiperatividade).
Esse transtorno se caracteriza por três sintomas básicos, que não precisam necessariamente acontecer ao mesmo tempo. São eles: Impulsividade, Hiperatividade e Desatenção. Também nem todas as crianças precisam ter todas as características. A cada momento do dia, do mês, da vida, uma dessas características poderá estar mais acentuada.
Essas características, existem devido a uma disfunção nos neurotransmissores cerebrais, que causam alterações nas funções de atenção e na velocidade das atividades física e mental.
Mas como ao mesmo tempo que uma criança pode não parar quieta, ela pode também viver no mundo da lua?
O transtorno de déficit de atenção pode vir ou não acompanhado de uma hiperatividade. Muitas das vezes a criança não apresenta características físicas de hiperatividade, é uma criança relativamente tranquila, sossegada, mas a sua cabecinha está sempre “a mil” e por isso tem dificuldade em se concentrar nas tarefas do dia a dia, em sentar para fazer lição, na verdade muitas vezes ela até senta, mas não consegue permanecer muito tempo concentrada naquilo, depois de 5 minutos a sua mente já está criando algo novo para fazer, pensando na brincadeira de amanhã, do desenho que assistiu na noite anterior, ou na festinha de aniversário dali a 1 mês.
Essas são chamadas de crianças preguiçosas, desleixadas, que não estão “nem aí com nada”. Mais uma vez culpa do cérebro que deixa de realizar importantes ligações relacionadas à concentração e atenção.
Abaixo, algumas das características do TDA-H:

1 – Erros de fala, leitura ou escrita
2 – Dificuldade de permanecer em atividades por um longo período
3 – Desvia facilmente a atenção do que está fazendo
4 – Desorganização
5 – Dificuldade em permanecer sentado muito tempo
6 – Fazer várias coisas ao mesmo tempo e não concluir nenhuma
7 – Se envolver em situações de risco
8 – Intolerância à frustração
9 – Impaciência
10 – Impulsividade para comer, brigar, responder

Essas são somente algumas das características dentre inúmeras outras. Para se identificar se o comportamento da criança relamente é de um TDA-H essas características precisam ser acompanhadas de intensidade, constância e frequência maior do que o normal, aquela sensação de que tudo é exagerado, demasiado e muito cansativo para os pais.
Essas crianças se forem devidamente observadas e os pais bem orientados podem se tornar extremamente criativas e dedicadas a tarefas prazerosas. Por isso, cabe aos pais e profissionais observarem as potencialidades e facilidades da criança, pois talvez, aí esteja o caminho para uma significativa melhora.
Ao invés de criticarmos o que a criança não faz bem, podemos ajudá-la se destacarmos nela aspectos positivos e reais.
A criança provavelmente também precisará além de pais e psicólogos, de um acompanhamento psiquiátrico, que irá avaliar a necessidade de frequência de alguma medicação que ajude a criança a minimizar sintomas que podem atrapalhar seu desenvolvimento.
Lembro, que essas características se não observadas, cuidadas, tratadas prevalecem por toda a vida. Abordei aqui esse tema, com uma luz voltada para as crianças, mas existem muitos adultos com inúmeras dificuldades de relacionamento, impulsividades, tendência ao abuso de alcool e drogas, dificuldade de permanecer em empregos, entre outros, que não foram diagnosticados e tratados quando crianças e levaram o transtorno pela vida, carregando ainda provavelmente dezenas de rótulos e uma baixa auto-estima.
Sendo assim, o quanto antes a ajuda for procurada, mais chances de ter uma vida sem maiores problemas relacionados a esse transtorno.
Durante o texto, utilizei muitos termos populares, e até pejorativos propositalmente, porque normalmente assim são rotuladas essas pessoas durante toda sua vida, então devemos tomar cuidado com julgamentos e preconceitos e observar atentamente para que a ajuda venha o quanto antes, pois isso pode estar acontecendo bem do seu lado.

Adriana Biem