"Quem olha para fora sonha, quem olha para dentro acorda"

JUNG

terça-feira, 24 de julho de 2012

Como se fosse o último




Por Ana Jácomo

"Quem dera eu aprendesse a viver cada dia como se fosse o último. O último para dizer “obrigada”. O último para dizer “me desculpa”. O último para dizer “eu te amo”. O último para abraçar cada pessoa amada com aquele abraço bom que faz um coração cantar para o outro. O último para apreciar a vida com o entusiasmo que não guarda nenhuma delícia nem ternura pra depois. O último para fazer as pazes. Para desfazer enganos. Para saborear com calma, como se me servissem um banquete, a preciosidade genuína que cada único respiro humano representa.

Quem dera eu aprendesse a viver cada dia como se fosse o último. O último pra esquecer tolices. O último para ignorar o que, no fim das contas, não tem a menor importância. O último para rir até o coração dançar. O último para chorar toda dor que não transbordou e virou nódoa no tecido da vida. O último para deixar o coração aprontar todas as artes que quiser. O último para ser útil em toda circunstância que me for possível. O último para não deixar o tempo escoar inutilmente entre os dedos das horas.

Quem dera eu aprendesse a viver cada dia como se fosse o último. O último para me maravilhar diante de cada expressão da natureza com o olhar demorado de quem olha pela primeira vez. O último para ouvir aquela música que acende sóis por toda a extensão da minha alma. O último para ler, de novo, o poema que diz tanto de mim que eu me sinto caber nos olhos do poeta que o escreveu. O último para desembaraçar os fios emaranhados dos medos que me acompanham.

Quem dera eu aprendesse a viver cada dia como se fosse o último. Eu não perderia uma chance para me presentear com os agrados que me nutrem. Eu criaria mais oportunidades para dizer o meu amor. Para expressar a minha admiração. Para destacar para cada pessoa a beleza singular que ela tem. Para compartilhar. Eu não adiaria delicadezas. Não pouparia compreensão. Não desperdiçaria energia com perigos imaginários e com uma série de bobagens que só me afastam da vida.

Quem dera eu aprendesse a viver cada dia como se fosse o último, porque pode ser."

(Ana Jácomo)

terça-feira, 3 de julho de 2012

Sente ou Racionaliza

Seria tão mais bonito se ao invés das pessoas racionalizarem tudo, elas pudessem sentir mais. Se deixássemo os fatos tocarem mais o nosso coração.

Na prática clínica muitas vezes percebo a descrença da pessoa para alguns insights que temos no consultório. Na verdade, não sei bem se descrença é o nome. Percebo que muitas vezes o que é falado lhes toca, mas não dá um minuto e lá vem uma justificativa, uma racionalização para aquilo e assim todo encanto vai embora...

Não estou dizendo para abandonarmos a razão, precisamos dela sim, e muito! Mas existem momentos tão bonitos na vida, tão únicos e muitas vezes os desperdiçamos com racionalizações sem propósito, que na verdade só vão prejudicar a nós mesmos.

Está faltando um pouco mais de sentimento no mundo, as pessoas precisam se deixar tocar mais vezes, mesmo que aquilo a princípio não vá trazer soluções práticas, com certeza trará uma expansão de consiciência significativa.

E por falar em soluções práticas é por isso mesmo que estamos como estamos. Procuramos sempre a solução mais prática, mais fácil. Quando estamos doentes, quando o nosso corpo pede descanso, normalmente não o respeitamos, tomamos um remédio, e no dia seguinte já estamos lá, novamente atropelando a vida, os sentimentos e os pedidos agonizantes da nossa alma.

O “peso”  de sermos seres racionais é muito grande e reflete nossas atitudes o tempo todo. Será que também não podemos também sermos seres “sentimentais” ou “de sentir”? Na verdade também somos, mas isso não é muito valorizado na sociedade em que vivemos e acabamos deixando o sentir “pra lá”, vemos o sentir como algo imaturo, inocente e acreditamos que sentir não é coisa de gente grande. Já que é assim, nos espelhemos nas crianças. Pra que ser gente grande o tempo todo? Que coisa chata! Sinta, se encante, se surpreenda! Uma dose de inocência não faz mal a ninguém!

Racionalizar os sentimentos, é deixar de sentir.


“Só se vê bem com o coração. O essencial é invisível aos olhos.” – Saint Exupéry